Os 20 poemas classificados no III CONCURSO DE POESIA-UnB-Habeas Liber

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IMG-20181017-WA0010O III CONCURSO DE POESIA da Faculdade de Direito já encerrou a primeira fase com a escolha pela Comissão Examinadora dos 20 poemas aptos a irem para votação no Facebook a partir de domingo 02 de dezembro.

Visando contribuir para o desenvolvimento e divulgação da cultura, da escrita e da criação literária na Universidade o III Concurso de Poemas do Projeto Habeas Liber da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília alcançou parte de seu objetivo ao deferir a inscrição de 76 poetas universitários e destes escolher vinte deles para que pudessem prosseguir na fase seguinte.

 

Para votação não deixe de escolher o seu poema preferido em

https:/www.facebook.com/HabeasLiber/

O nível de qualidade dos poemas foi bastante elevado e em votação democrática pelos membros da Comissão foram classificados para a segunda fase os seguintes poetas: Bruno P, Princesa Kari, Maria Fernanda, J. Eduardo, Samantha, Laquantic, René, LP, F.F., ClarinhaMar, Will, Bruna Souza, Ronypeterson, Tiago Rubo, Mário Agusto, Marcus Vinícius Pinheiro, Ezra Rhadarmant, Nanau, Thiago Inácio e Mariana Cardoso.

Com o registro de que os dois mais votados serão premiados respectivamente com um kindle e um tablet, eis abaixo os excelentes poemas que passaram para a segunda fase:

 

O Pedalar da Bicicleta

eu quero nunca ter pressa

e tocar todos os acordes do meu som

imaginar todos os sabores

e quem sabe amar por todas as cores

 

eu quero nunca ter pressa

e compreender a solidão

como um dos maiores infinitos,

com seus silêncios e seus mitos

 

eu quero nunca ter pressa

e aprender a sonhar

na terra das incertezas,

construir o meu lar

 

eu quero nunca ter pressa

nessa vida incessante

afinal, o que vale a gente sente:

a beleza de um instante

 

 

 

Pobre beija-flor

 

Do que tens medo

Se somes e, depois, voltas?

Não há razão para temer

A não ser perder

O que tanto temes!

 

Saudade: sina do amor que repristina!

 

Ah! Porque és a coisa mais linda que já conheci…

Não me aquieto,

Tampouco me importo.

Amor: sentimento escasso tão cobiçado!

Mais do que ouro, um verdadeiro tesouro.

 

 

Muro de Berlim

Atropelado pelo tempo

Vivo só em pensamento

Vai passando um vulto

Na multidão, oculto

 

Em ruelas esquecidas

E grandes avenidas

Ele vem e ressurge

Sempre feroz, ruge

 

Com seus velhos ideais

Cruza braços e sinais

Verdes ou vermelhos

Ignorando conselhos

 

Não desiste da utopia

Ainda quer o que queria

Um mundo perfeito

Pra ele, sem defeito

 

Tropeça mas não cai

E em seu curso vai

Esquecendo um muro

E o passado obscuro

 

 

AMOR-TE

 

Quem ama verdadeiramente

Senão a morte?

Deve pensar que estou triste,

Ou acha que desejo de imediato…

Equivoca-se!

Não a quero agora,

Porém a reconheço!

 

Ela ama tanto a

Todos nós…

Nos dá a única certeza da vida!

Mergulhados estamos

Num mar de dúvidas…

Questionamentos…

Ela é a única gota incontestável…

 

Tão pura e verdadeira,

Acolhe a todos num abraço

Infindável de descanso.

Ou será que nos leva

Apenas para renovar?

Presentear com vida nova?

Vai saber o que realmente faz…

 

Afirmam por aí

Que a justiça é cega…

Então nada é mais justo

Que a amante morte,

Falsa serva da escuridão.

Nada vê, nada julga,

Apenas busca quando é hora.

 

Entidade maléfica?

Destino cruel?

Discordo!

Tudo inicia…

Tudo finda…

Ela nos garante isso!

A incompreendida e amante morte.

 

Um fardo chamado céu

Na aurora é tímido

Ao meio dia impiedoso

Confundo com o sol

Mas dele é pano de fundo

 

Às vezes o limite

Ninguém nas pontas dos pés te alcança

Parece plácido

E ora fustigante

 

À noite vela com a luminescência das estrelas

Mais de uma faceta tem

Paira sobre todos

Mas não conhece ninguém

 

Zomba do chão

Por ser “superior”

Mas o que tem é inveja

Disfarçado de temor

 

Sobre você ninguém pisa

Nem mesmo poderia

Apenas os alados

Lhe fazem companhia

 

Atlas te segura

E sequer agradece

Se rejubilaria se um fim

A humanidade tivesse.

 

 

O COMBATE

 

A noite inteira o poeta

Sentado, vira-se o rosto

A lutar com as palavras

Aceita o combate.

 

Escuta os brados que surgem, Oh Poeta!

Senta-te e vira o teu rosto a lutar

Com as palavras neste pedaço de papel.

 

A essência captada e sutil

Sem roteiro, não tem carne, nem sangue, mas a vida surgiu bem aqui.

 

Ó palavra, o ciclo do dia da vida,

O poeta calou-se, se rendeu

Sobrou só isso, leitor

É teu.

 

 

Tornado

Transversalmente trágico e veloz
é o traço na folha consumida.
Que quando última linha,
tenta sem fim,
um sim do
seria
!

 

 

 

sem título

Nessas ruas ficam

Sorrisos partidos.

Essas ruas mostram

Ideais destrutivos.

 

Nessas ruas cruas,

A verdade nua.

Nessas ruas tortas,

A lembrança de um tempo,

hoje,

morta.

 

O passado que esqueceu-se de passar

Feridas abertas,

Sem hora pra fechar.

Corações

Receando pulsar.

 

Se

estas ruas

 

Fossem minhas,

 

Eu mandava

 

não mandar.

 

 

 

Pêndulo Epifânico

Ainda que os céus argênteos despontem

E os dias sejam como vil lamento

E a vida o ínfimo cadenciado

Trôpegos oscilaremos enfim

 

Ritmos jubilosos ecoarão

Por entre as pétalas primaveris

E sob o sol vívido de setembro

O prolongar infinito da vida

 

Encontros ambíguos são epifânicos

Enquanto encerram dúvidas febris

E tanto nos dias tenros de outrora

 

Instante a auréola da vida autêntica

Assimila então sinuosas sombras

Da, essencial, incompreensão

(Poema baseado na obra de Clarice Lispector – A Paixão Segundo G.H.)

 

O Oceano do Mundo Concreto

Nada sei dizer sobre grandes egos

De grandes feitos meu corpo tem vão

Não me atrevo a contar do que sou cego

Nessa sombra feita clara ilusão

 

Nunca entendi, mas sempre me calaram

Minha sã poesia não diz de amor

Deste, todas as bocas já falaram

Crucifixo de corações, torpor

 

E do oceano que sobrevivi

Tão real que me dói imaginar

Mundo, fel de ódio num doce servir

 

Tua boca fala do vazio, teu ser

E meu oceano se deixa afogar

Na palavra que luta com o morrer

 

 

Agradecimento

Aos que entendem.

 

Aos que não procuram heróis e vilões.

Aos que se entregam à angústia da noite e

à esperança do dia.

 

Aos que se dão ao ridículo de chorar

em locais públicos.

Aos que publicam suas fraquezas em verso.

 

Aos que contam as horas para os abraços e

perdem essas mesmas horas nos encontros.

Aos que querem muito dizer, e de tanto querer se engasgam, e

ainda assim dizem tudo com os olhos.

 

Aos que não pisam os insetos no caminho de casa, e

se riem com os cães.

 

Aos que vivem no presente-futuro para ter a chance

de escapar do presente-presente.

 

Aos que se compadecem e não julgam aqueles que blasfemam.

Aos que blasfemam.

 

Aos que entendem.

 

A vocês.

Especialmente a vocês.

 

Muito obrigado.

 

 

Lágrimas de Rivotril

A moça que chora, de dia, todo dia

Sofre por amor, por amizade ou empatia?

Vive tudo tão intensamente

E, pelos olhos, de repente

Chora por um mundo que uma vez riu

São todas lágrimas de Rivotril

 

A vida fez, no moço, um certo estrago

Agora ele acha que sentir é pecado

E o cinismo é a razão

Nunca sofre abertamente

Apenas mergulha em seu travesseiro quente

E chora um choro doído, chora uma oração

 

Acredito que a tristeza seja visita

Que senta à mesa para um café

Bebe devagar, nunca aflita

Deixa a felicidade esperar em pé

 

À moça e ao moço que conheço

E a todos os outros que não pude mencionar

Espero que tenham o dom mais sábio

O dom de esperar a tristeza ceder seu lugar.

 

 

TRISTITIA BRASILIENSIUM EM QUATRO ATOS

ATO UM – A CEGUEIRA

 

Eu (não) vi ele chegar
E (nem) como sucedeu
A (in)verdade a galopar
Em nome do meu (santo?) deus.

 

Eu (não) vi os noticiários
Em correntes diz(ser)minados
(Des)informação via grupão
Do(i)s pacotes do patronato

 

Eu vi (mas não quis ver)

Minha família em (des)lealdade
Se posicionar (in)decentemente
E a (des)favor da humanidade.

 

Fizeram dele (não!) Presidente.

 

E na cegueira bateram (em mim) palmas
Saudaram a (velha) nova salvação

Eu (não) vi consideração e (nem) afeto
(Não) a mim e (nem) meus irmãos: ma(i)s a-feto.

 

E eles dizem: você (não) vê o que fizeram?
Mudar de verdade é (im)preciso
Você (não) enxerga o que eu (não) enxergo
Futuro do Brasil é passado (v)indo.

 

 

 

A derrota do poeta

Se pesa a pena
Culpa, copiosa cena
Dos romances intensos
Segue assim sendo

Um poeta amante
Da letra distante
Da realidade, que quente
Arde e ressente

Poesia é não viver
É encontrar sem ter
Que sentir bafo
Suor, pelos,
E espinhas e cravos

Mas a palavra não faz
Não cria, não move
Não goza, não vive,
Não morre

Viver é melhor que sonhar
E se vivo está
Se sabe que a dor
É o preço de amar

 

 

Destino em sânscrito

 

Quantas coincidências

Fazem um destino?

Que cabala fiandeira é esta,

Que me ata os olhos

No sânscrito da tua pele

E eu juro minha sorte

Na hora íntima do teu cheiro?

 

Por qual risco da tua mão

Que o meu signo

Cobre de flores o teu chão?

Quando o teu caminho

Espalha as letras da ciranda

Da minha sina?

 

E se o encanto do abraço

Nos enfeitiçar os astros?

E se nossos mapas nos perderem

Na certeza do nosso beijo?

E se o Tempo for um deus

Que nos faça o milagre do momento?

E se nosso sussurro for reza

Na catedral dos nossos instantes?

 

E se tudo virar Lua

Sob a confusão das nossas pernas?

E se nossa liberdade for luar?

E se você sorrir escondida?

E se eu te mimar com o olhar?

 

E o destino?

Quantos acasos ele escondeu

Para o teu encanto ser meu?

Com quantas fitas amarrou

Meu sorriso no teu caminho?

 

 

 

Conselho Distinto

 

Da carne viva de minh’alma

Nascida dos emaranhados da solidão

Digo que se foi o tempo da calma

Porque louco se encontra o coração

 

Ó ingênuo que contempla as estrelas

Que toma por loucura de amor a das tristezas

Pobre coitado!

Não sabes que também são cadentes

As lagrimas ardentes que ferem a face?

Que de meu mar de ossos e podridão

Brota o sangue com que brincam

A pena, o papel e a mão?

 

Não me insultes!

Não tome por belo canto

Meu pranto

Sinfonia de minha dor

Não, não se trata de amor

 

A loucura que cultivo

É a dos realmente loucos

Que tem na escrita um paliativo

Para a sanidade que esvai aos poucos

 

Ó meu amigo!

Mais uma vez te digo

 

Não se importe com a métrica

Com versos alexandrinos ou musicalidade

Porque a bem da verdade

É que somos almas enegrecidas

Esfaceladas, ensanguentadas

Escarnecidas, humilhadas

Destruídas, inutilizadas

 

Abraça a loucura

Faze dela tua amiga

Confidencia-lhe teus segredos

Para gozar dela a companhia

E talvez assim se modifiquem os enredos

Daquilo que lhe vinha

 

E quando a vida te açoitar

Quando pesares lhe obrigarem a fronte a se curvar

Ria! Ria incontidamente! Ria exasperadamente!

E deleita da presença da tua amiga

Que entre a carícia e o abraço

Corta o laço dessa vida

Triste e sofrida

Vida De solidão

.

 

 

“Talvez não valha o poema”

Talvez não valha o poema

A poesia que te quero dizer,

Mas tu tens os olhos mais bonitos

Os mais bonitos de não ver.

 

Que se fecham para abrir

Na boca um laço a sufocar

Na pele os signos que escrevem

Os dentes para os lábios apagar

 

Que se abrem para correr

Afora por sobre os telhados

A espiar de esguelha as cores

Das casas e uni-las às árvores

 

Num mosaico que recrie refletida

A cidade no espelho nu do céu

Para contra o mistério do azul

Deixar outro céu pervertido florescer

 

Olhos que carregam da vida

A textura e anseiam, sem linha

Ou agulha, dobrar o mundo

Numa miríade de retalhos, um cobertor

 

Desenham as trevas e trincam as luzes

E fazem se enrolar, assustado

O horizonte contra o mar perfurado

Que escoa novo rio margeado pelas estrelas

 

São olhos os teus que não param,

Mas reparam o mundo em quadros

A se afinar em lâminas que cantam retalhos

Farfalhar sem ritmo que borboleteia teu ser

 

E se um dia eu vir teus olhos

Tragarem o sol tecendo as nuvens

Fazendo o rio celeste desembocar

Em sua luz, tornando-o astro de outro oceano,

 

Peço que me queimes na chama crua

Desse mar de ondas com águas

Sem praias a lhe parar e eu seja

Afogado na altivez infinita do teu alto-amar

 

 

Marcha das Mulheres

Corpos brancos, pardos, negros, desnudos é o que cobiçais!

Mulheres arrasadas, fracas, devastadas é o que alcançais!

Machucadas pelo ataque dos Animais

Arrancada com ímpeto sua inocência se vai

E ainda acha que não fez nada?!

Estamos juntas na Marcha!

 

Defloradas! Rasgada sua carne com desejo fug(ais)az

Desrespeitadas! Sofrem com atitude vor(ais)az

Delicadas peles trituradas se f(ais)az

Selvagem algoz com agressões mortais

E ainda assim a consciência não fica pesada?!

Estamos juntas na Marcha!

 

 

Lembranças diárias de dores infernais

Triste realidade de uma vida sem p(ais)az

Fingimento coletivo não aguento o que f(ais)az

Não importa o que dizem é tua culpa rap(ais)az!

Que nenhuma Mulher seja mais dilacerada

Estamos juntas na Marcha!

 

 

 

Malditos libidinosos infelizmente encontrais

Revestidas de sangue é o que provocais

Mulheres judiadas por obsessões fatais

Marido, amigo, padrasto e até pai!

Que nenhuma Mulher tenha mais a vida ceifada!

Estamos juntas na Marcha!

 

Mulheres humilhadas é o que se tornais?

Superada a desonra não se rebaixais

Renovada suas forças cada vez mais

Liberdade conquistada grilhão que se cai

Herdai o tormento, mas não será maculada!

Estamos juntas na Marcha!

 

Sofre violência e ainda é julgada culpada!

Estamos juntas na Marcha!

É abusada e ainda é rotulada de safada!

Estamos juntas na Marcha!

Para que nenhuma Mulher seja mais estuprada!

Estamos juntas na Marcha!

 

 

Agonia

Agonia, tão vil, feroz,

Que ao meu lado tem estado

Como pode em tresloucado

Transfigurar o homem assim?

Que raios gozas de mim

Que nem pertenças tenho?

E, se algo tive, foi engenho

Que, ora mortos, me têm abdicado.

 

Contenta-te com o mal

Porque a fraqueza quem te assiste.

E se há voltado, é pois

Que tua lembrança é dissipada

No instante mesmo em que saíste.

 

Ora! Vim dizer-te! Contra ti atento!

Ao teu relento, não pedi sequer favores.

Andarilho, em meus mais dias,

Tiveram em mim alegrias

Intensas mais do que tuas dores.

 

Fraca, vil e mentirosa!

Tu jogaste em mim – ó venenosa! –

Martírio e peçonha, quando

de umbrais fizeste as fronhas

em que detido eu me aqueço.

 

Em que momento tão míope fui,

Que tu entraste em minha casa e

Amputado eu tivesse as minhas asas?

Quando, da noite a volúpia soa,

Tu maltrataste a minha pessoa

E roubaste a minha sanidade?

 

Pelo dito, ando assustado.

Sustentado por somente sorte.

Como que temente a fortuna, morte

Ela me trouxesse qualquer dia.

 

Toma minhas mãos, como estão frias.

Vide também o céu que desbotoa em chuva rala

Alguns nascem sem fé, supremo deus…

E sem meios de exercitá-la.

Pois até minha alma, meu caro,

Onde estará, se não com o diabo?

 

 

 

VERNISSAGE

 

Todo mundo elegantece no frio

e minas gerais é um reino.

Na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard

tem paletós, casacos, echarpes indianas,

tem scarpins, botas, mocassins,

tem a proibida palavra EUROPA

acordada sob todas as línguas,

línguas doces de champanhe

que lambem fantasias de

parques com árvores peladas e

bistrôs tocando jazz à meia luz.

 

Na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard

senhoras e senhores aprovam

telas tristonhas

com camponeses famintos,

com camponeses feridos,

com camponeses,

e dizem que nunca se fez nada

como os retirantes de portinari.

Uma parede de vidro,

que é uma barreira de vidro,

que é um muro de berlim de vidro,

que é uma muralha da china de vidro,

separa – mui educadamente

o respeitável público

da Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard

do homem escorado do outro lado do vidro,

que entre o papelão e a manta dorme

de regata e bermuda.

 

O homem que dorme

(um camponês faminto,

um camponês ferido,

um camponês)

está fora da Galeria,

está fora da estação,

está fora de cogitação.

Todo mundo elegantece no frio

e minas gerais é um reino.